quinta-feira, 24 de maio de 2012

Mistificação e ideologia

Desde que Menênio Agrippa se dirigiu aos romanos, que haviam entrado em greve e ocupado o Monte Sagrado no século VI a.C., a concepção "orgânica" da ordem social vem sendo defendida em inúmeras ocasiões. Segundo o tão reverenciado cônsul romano que era conhecido como um "homem de pontos de vista moderados", cada camada social tem seu "próprio lugar" no grande organismo. As camadas inferiores devem obter sua satisfação a partir da "glória refletida" e, independentemente de sua inferioridade, ser consideradas "igualmente importantes" para o funcionamento do organismo a que pertencem.

Evidentemente, esse foi um poderosíssimo exercício ideológico. Segundo a lenda, os que protestavam se comoveram tanto com os "pontos de vista moderados" do cônsul que, imediatamente, abandonaram sua postura de desafio coletivo e retornaram aos lugares a eles determinados.

Seja como for, pelo menos um fato histórico é inquestionável: eles se mantiveram vinculados aos seus "próprios lugares" na sociedade, nesses últimos dois milênios e meio que se passaram desde o paradigmático Sermão de Estado, pronunciado por Agrippa no Monte Sagrado, "participando", assim, da reprodução da ordem estabelecida através de todos os ajustamentos necessários às condições mutáveis da dominação.

O que nos interessa diretamente é o papel específico da ideologia nesse processo de ajustamentos estruturais, pois a reprodução bem sucedida das condições de dominação não pode ocorrer sem a intervenção ativa de fatores ideológicos poderosos, do lado da manutenção da ordem vigente.

É claro que a ideologia dominante tem interesse patente na preservação do status quo, no qual mesmo as desigualdades mais clamorosas estão "estruturalmente" entrincheiradas e protegidas. Portanto, ela pode se permitir ser "consensual", "orgânica", "participativa" e assim por diante, reivindicando, desse modo, também a racionalidade auto-evidente da "moderação", "objetividade" e neutralidade ideológicas (dominantes).

Ademais, o fato é que estamos discorrendo sobre sociedades de classes que são,necessariamente, divididas por contradições internas e antagonismos, independentemente do sucesso da reprodução do quadro estrutural hierárquico de super e subordinação e da aparência de "comunidade" através dos tempos. E já que os parâmetros de exploração de classes da sociedade se mantêm "intocáveis", as várias teorias de "vida social orgânica", "consenso", "participação" etc. são "postulados morais" impotentes, ou racionalizações apologéticas e legitimações do injustificável, desde Agrippa até seus longínquos descendentes da nossa época.

Deve-se enfatizar que o poder da ideologia dominante é indubitavelmente enorme, não só pelo esmagador poder material e por um equivalente arsenal político-cultural à disposição das classes dominantes, mas também porque esse poder ideológico só pode prevalecer graças à preponderância da mistificação, por meio da qual os receptores potenciais podem ser induzidos a endossar, "consensualmente", valores e diretrizes práticas que são, na realidade, totalmente adversos a seus interesses vitais.

A esse respeito, a posição das ideologias conflitantes é decididamente assimétricas. As ideologias críticas, que procuram negar a ordem estabelecida, não podem sequer mistificar seus adversários, pela simples razão de não terem nada a oferecer - nem mesmo subornos ou recompensas pela aceitação - àqueles já bem estabelecidos em suas posições de comando, conscientes de seus interesses imediatos palpáveis. Portanto, o poder de mistificação sobre o adversário é privilégio exclusivo da ideologia dominante.

Esse texto acima é um trecho da introdução do livro Filosofia, ideologia e ciência social do cientista político István Mészáros. Seu conteúdo é de fácil assimilação: 1) a ideia de sociedade orgânica não é nova e os dominados aceitam sua condição como algo necessário para a manutenção da ordem. De certa forma, a religião  sedimentou este pensamento, visto que se determinada pessoa está em tal condição só pode ser por vontade divina. ( O texto supra-citado não aborda a religião diretamente, mas, indiretamente fica sub-entendido pelo conceito ideologia, pois toda religião têm caráter ideológico). 2) podemos dizer ainda que o arsenal político-cultural soma-se a um poder mistificador exclusivo da classe dominante que é usado para manter seu estado de dominadores. Esse talvez seja a maior fraqueza da ideologias (propostas) alternativas, visto que não têm esse arsenal a seu dispor nem muito menos um mecanismo mistificante a oferecer. Por essa razão cria-se nos sujeitos a sensação de não-recompensa em aderir à outras propostas que não seja a vigente. 3) por fim, entendemos que há uma continuidade histórica nesse paradigma ideológico dominante. Nunca foi tão gritante as vozes dissidentes de nossa época que vai de encontro à esse modelo que é, desumanizante pois em sua essência está o veneno da exploração a qualquer custo (mesmo de vidas) para se manter no poder.

Erivan

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Marx para o século XXI


Marx para o século XXI

            "A era de regimes comunistas de massa chegou ao fim com a derrocada da União Soviética, pois mesmo onde ainda sobrevivem, como na China  e na Índia, na prática abadonaram o velho projeto dp marxismo-leninismo. E, quando assim procederam, Karl Marx viu-se mais uma vez numa terra de ninguém. O comunismo alegara ser seu único herdeiro verdadeiro, e suas ideias tinham sido em grande medida identificadas com o movimento. Isso porque mesmo as tendências marxistas ou marxistas-leninistas dissidentes que fincaram cabeças de ponte aqui e ali, depois que Stálin foi denunciado por Kruchev, em 1956, eram, quase certamente, cisões de partidos comunistas. Assim, durante a maior parte dos primeiros vinte anos depois depois do centenário de sua morte, Marx se tornou, arigor, um homem do passado, que já não merecia que nos incomodássemos com ele. Houve mesmo um jornalista que deu a entender que o fato de falarmos sobre ele aqui, esta noite, é uma tentativa de resgatá-lo da 'lata de lixo da história'. No entanto, Marx é hoje, mais uma vez, e com toda justiça, um pensador para o século XXI.


            Não creio que se deva dar demasiada importância à pesquisa de opinião da BBC segundo a qual os ouvintes britânicos o apontavam como o maior de todos os filósofos, mas, se digitarmos seu nome no Google, ele continua a ser a maior de todas as grandes presenças intelectuais, só superada por Darwin e Einstein, mas bem à frente de Adam Smith e Freud.


            Em meu entender, há duas razões para isso. A primeira é que o fim do marxismo oficial na União Soviética liberou Marx da identificação pública com o leninismo na teoria e com os regimes leninistas na prática. Ficou claríssimo que havia ainda muitas e boas razões para se levar em conta o que Marx tinha a dizer sobre o mundo. E principalmente - essa é a segunda razão - porque o mundo capitalista globalizado que surgiu na década de 1990 exibia, em vários aspectos vitais, uma estranha semelhança com o mundo previsto por Marx no Manifesto comunista. Isso ficou claro na reação do público ao sesquicentenário desse surpreendente panfleto em 1998 - que foi, diga-se de passagem, um ano de enorme pertubação na economia global. Dessa vez, paradoxalmente, que redescobriu Marx foram os capitalistas, e não os socialistas, que estavam desalentados demais para comemorar a data com muito entusiasmo. Lembro-me de como fiquei atônito ao ser procurado pelo editor da resvista de bordo da United Airlines, de cujos leitores 80% devem ser executivos americanos. Eu havia escrito  um artigo sobre o Manifesto. Como ele achava que os leitores da revista estriam interessados num debate sobre o Manifesto, perguntou se eu o autorizava a usar trechos de meu artigo. Fiquei ainda mais espantado quando, num almoço mais ou menos na virada do século, George Soros me perguntou o que eu achava de Marx. Por saber o quanto nossas ideias eram divergentes, preferi evitar uma discursão e dei uma resposta ambígua. 'Esse homem', disse Soros, 'descobriu uma coisa com relação ao capitalismo, há 150 anos, em que devemos prestar atenção'. E tinha descoberto mesmo. Pouco depois disso, autores que, ao que eu saiba, nunca tinham sido comunistas voltaram a olhar para ele com seriedade, como faz Jacques Attali em seu novo estudo sobre Marx. Attali também crê que Marx ainda tem muito a dizer àqueles que desejam que o mundo seja uma sociedade diferente e melhor do que a que temos atualmente. É bom lembrar que desse ponto de vista precisamos levar Karl Marx em conta hoje em dia.

            Em outubro de 2008, quando o jornal londrino Financial Times estampou a manchete 'Capitalismo em convulsão', não podia mais haver dúvida de que Marx estava de volta aos refletores. Enquanto o capitalismo mundial estiver passando por sua mais grave crise desde o começo da década de 1930, será, improvável que Marx saia de cena. Por outro lado, o Marx do século XXI será, com certeza, bem diferente do Marx do século XX."



Fonte:
Hobsbawm, Eric. Como mudar o mundo: Marx e o marxismo. Ed Cia das Letras. p.14-16